OPINIÃO – Cadê a cena rock autoral dos anos 2020 de Goiana?

Espaços escassos, grandes veteranos e uma plateia sedenta: o que falta para a juventude de Goiana tirar as guitarras da garagem e incendiar a cena autoral novamente?

Por: Elthon Taurino – Vocalista da banda One Black Two White e entusiasta da cena independente de Goiana.

Já ultrapassamos a metade dos anos 2020. Estamos em 2026 e a pergunta que insiste em ecoar é uma só: cadê a novidade? Onde estão as novas bandas de rock da cidade? Cadê os garotos e garotas de 16 a 20 anos montando power trios na garagem, criando distorções tortas ou arriscando os primeiros acordes do seu próprio repertório?

Para entender o apagão de novos nomes, é preciso olhar o retrovisor. A pandemia da COVID-19 interrompeu laços, fechou portas e mudou radicalmente a forma como a juventude se relaciona e consome cultura. Soma-se a isso as dores crônicas de Goiana da falta de espaços underground fixos — alimentada pelo fim de iniciativas promissoras como o 06 Cordas Rock Bar — e uma agenda pública historicamente tímida para o peso da guitarra.

Se o rock de Goiana não morreu de vez, o mérito é de quem recusa o luto. Artistas das cenas dos anos 2000 e 2010 vêm mantendo a chama acesa em banho-maria. Lembrando que a última banda de rock autoral criada em Goiana foi a Negative Moon, que fez seu último show em dezembro de 2019, antes da pandemia.

A chama que teima em queimar: Resistência e encontros

Nos momentos mais severos do isolamento social, a salvação veio pelas telas. Em 2021, o Festival A Música Reside no KAOS (viabilizado pelo Funcultura/PE) serviu como um sopro de vida e um documento histórico necessário. Ver o rock goianense representado por Prisma Orbe, a Usinaria e Lucas Torres em apresentações audiovisuais impecáveis acalmou a alma dos sedentos pelo som pesado, mas a pergunta continuava no ar: onde estava o sangue novo?

Festival Online A Música Reside no Kaos (2021) / Reprodução: Youtube

Com a volta do público aos locais fechados em 2022, o Movimento MATA Goiana celebrou o Dia Mundial do Rock no Sebastião Café e Bar, consagrando o espaço como o novo porto seguro da cena autoral local. As bandas Time Division, Canaviral e o DJ Duwend lideraram a celebração. Ali se abriu a brecha para a consolidação de um dos raros rituais fixos do nosso calendário: o Halloween do Coletivo Útero, que desde então reúne forças anualmente, agregando grupos de rock ativos no momento ou criando shows de reuniões, como exemplo a Vênus em Fúria (nascida no início dos anos 2010).

Mesmo assim, o circuito continuava operando no “modo de sobrevivência”: um ou dois eventos por ano, os mesmos rostos no palco e na plateia, saciando a sede de rock, mas sem ver a roda girar de verdade.

Dia do Rock – Mata Goiana (2022) / Reprodução: Youtube

Os primeiros sinais de fumaça (2025 – 2026)

Contudo, os últimos tempos trouxeram pequenas, mas significativas vitórias. Em 2025, a Prefeitura de Goiana finalmente deu um passo importante ao incluir um dia voltado à cena alternativa e autoral na programação do Carnaval. Dividir o palco com a juventude do hip hop da Batalha da Duque e o reggae de Debby e Jah Band, ao lado de nomes do rock como Prisma Orbe, Diego Lucena e Os Cardiopatas, Banda Canaviral mostrou que a diversidade é o único caminho contra o ostracismo da grande mídia.

Carnaval de Goiana (2025) / Reprodução: Instagram

No mesmo ano, vimos o Atelier Valcira Santiago abrigar a reunião do The Blue Tomato (criada no fim dos anos 2000) e a recepção aos vizinhos da Magenta (Igarassu). Para mim, particularmente, o Halloween do Coletivo Útero de 2025 teve um sabor especial: marcou o retorno da minha própria banda, a One Black Two White, após o hiato da pandemia, apresentando nova formação e lançando novos singles.

Entramos em 2026 mantendo esse espaço conquistado no Carnaval e vendo a juventude presente, ocupando os eventos vestida de preto, com olhar atento. A energia vista no Balaklava 1ºAto, promovido pelo coletivo Surto Coletivo, provou que o público jovem quer o som pesado. Ele está lá. Mas por que esse jovem ainda está na plateia e não no palco?

Evento Balaklava 1º ATO / Reprodução: Instagram

O diagnóstico e o desafio: O rock precisa aprender com a rua

Falo aqui não apenas como colunista, mas como alguém que pisou nos palcos da cena goianense pela primeira vez em 2003 e continua na ativa com a One Black Two White.

Há um estopim prestes a explodir. Vejo uma garotada talentosa que domina seus instrumentos, mas restringe sua arte aos vídeos curtos de redes sociais. Vejo também músicos mais maduros travados na dúvida de “como” ou “com quem” recomeçar.

A verdade é uma só: a vida de qualquer cena cultural depende do ímpeto da juventude. É o jovem que junta trocados para pagar o ensaio, que cria o próprio flyer no celular, que faz o evento acontecer na raça porque precisa gritar o que sente. O adulto maduro, por razões óbvias de tempo e rotina, tende a condicionar sua música ao conforto. A juventude condiciona sua música à urgência.

Tupan – Grupo de Experimentação Musical apresentando uma releitura da banda de rock goianense One Black Two White / Reprodução: Instagram

Se queremos entender como manter uma chama acesa, precisamos olhar para a cena de Hip Hop de Goiana, por exemplo. Desde a década passada — e até mesmo no pico da pandemia —, a galera do Rap e da Batalha da Duque nunca pararam. Eles ocuparam praças públicas, criaram pontes com as periferias, conversaram diretamente com os adolescentes e se tornaram vitais para a cultura da cidade.

O rock de Goiana precisa, urgentemente, aprender a caminhar assim.

Para o rock viver, ele precisa ser vivido

Não podemos aceitar passivamente uma média de três eventos por ano. Precisamos de mais. Se faltam recursos para contratar uma estrutura de som pesada com bateria completa, por que não criar noites acústicas undergrounds? Por que não promover discotecagens mensais de rock em bares locais? Por que não cruzar o som pesado com a literatura, o audiovisual, o teatro e as artes visuais? Por que não idealizar uma Mostra Rock de Goiana, resgatando a memória do nosso som para inspirar quem está chegando agora?

Ideias não faltam. O público existe e o desejo está latente. O rock goianense não pode ser um artigo de museu guardado por veteranos nostálgicos. Para o rock se manter vivo em Goiana, ele precisa ser vivido — hoje, no presente, e de portas abertas para quem quiser colar junto.

Show da banda One Black Two White no Carnaval de Goiana 2026 / Foto: Thiago Moreira

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