OPINIÃO: Caboclinho Canidé celebra 55 anos e reúne a comunidade em uma emocionante festa de cultura popular

Uma daquelas noites que renovam a esperança de quem acredita no fazer cultural. No bairro da Nova Goiana, mais precisamente na Rua Vicente Celestino, o Caboclinho Canidé de Goiana celebrou seus 55 anos de história, reafirmando a força de uma tradição construída pelo povo e para o povo.

Imagem: Hevelyne Figueirêdo

Por Hevelyne Figueirêdo

A cultura popular se faz pelo povo
Ontem (15) foi uma daquelas noites que renovam a esperança de quem acredita no fazer cultural. No bairro da Nova Goiana, mais precisamente na Rua Vicente Celestino, o Caboclinho Canidé de Goiana celebrou seus 55 anos de história, reafirmando a força de uma tradição construída pelo povo e para o povo.

Fundado pelo saudoso Mestre Antônio Galdino, o grupo é hoje conduzido por sua filha, a Mestra Denise Galdino, ao lado de seu marido, o produtor cultural Thiago Andrade. Juntos, eles mantêm viva uma das mais importantes expressões da cultura popular goianense.

A programação reuniu manifestações que traduzem a riqueza do nosso patrimônio imaterial: o Boi Estrela, o Caboclinho Pena Branca Mirim, o Meu Urso e o banco de Cavalo-Marinho, conduzido pelo rabequeiro Micael Silva. A rua transformou-se em um grande terreiro de celebração, onde música, dança, cores e tradição envolveram o público em uma atmosfera de alegria contagiante.

Caboclinho Pena Branca Mirim / Imagem: Hevelyne Figueirêdo

Emocionada, a Mestra Denise Galdino exaltou sua ancestralidade e sua fé. Ao lado da família, viu seus filhos participarem ativamente da organização da festa, dando continuidade ao legado da família. Foi um retrato comovente da tradição sendo transmitida entre gerações, mostrando que a cultura popular sobrevive porque encontra abrigo dentro das famílias e das comunidades.

A noite também me fez recordar uma reportagem da Mestra Nadir, de São Luís do Maranhão, quando afirmou que a cultura popular é, antes de tudo, a cultura do povo. Segundo ela, essa cultura se sustenta em três pilares fundamentais: o simbolismo, que fortalece a religiosidade e a ancestralidade; a economia, que movimenta todo o saber fazer cultural; e o social, que une pessoas e fortalece os vínculos comunitários. Quando esses três pilares caminham juntos, a cultura floresce, resiste e se fortalece.

Foi exatamente isso que testemunhei ontem.

Vi uma comunidade reunida em torno de sua própria história. Vi crianças, jovens e idosos compartilhando o mesmo espaço, celebrando o pertencimento. Vi uma tradição que resiste graças ao compromisso de quem se dedica diariamente a mantê-la viva.

Imagem: Hevelyne Figueirêdo

Também vi o pouco apoio do poder público. Um cavalete interditando a rua, uma iluminação improvisada e uma tenda foram a estrutura disponível para um evento de
tamanha importância. Não romantizo o mínimo. A cultura popular merece muito mais. Merece investimento, planejamento, reconhecimento e políticas públicas permanentes. Mas, mesmo diante das limitações, a grandeza da festa falou mais alto.

O encerramento ficou por conta do grande homenageado da noite: o Caboclinho Canidé. Com passos firmes, ritmo pulsante e uma energia que atravessa gerações, seus integrantes fizeram ecoar, a cada pisada, a força de uma história construída ao longo de mais de meio século.

Imagem: Hevelyne Figueirêdo

A celebração revelou uma Goiana que enche seus filhos de orgulho: uma cidade feita por pessoas que amam o que fazem, preservam seus mestres e carregam consigo o compromisso de manter viva uma tradição que atravessa gerações.

É essa cultura que nos fortalece, nos inspira e reafirma nossa identidade. É nela que encontramos o sentimento de pertencimento, a força da coletividade e o exercício da cidadania.

Queremos uma cultura popular fortalecida. Queremos a cultura popular presente nas escolas, ocupando as ruas, dialogando com as novas gerações e sendo reconhecida como patrimônio vivo da nossa gente. Porque um povo que conhece e valoriza suas raízes constrói um futuro mais consciente, mais coletivo e mais humano.

Imagem: Tayná Nunes

Canidé vive. Vive em cada pisada do caboclinho, na emoção de sua Mestra, no toque afinado do gaiteiro e na memória de um povo que insiste em celebrar sua própria história. E enquanto houver quem brinque, quem cante e quem resista, o Canidé viverá para sempre.

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