Foi em um domingo de manhã ensolarada e tarde chuvosa que nos despedimos do Mestre Biloco, em um dia que parecia traduzir, no céu, a mistura de gratidão e tristeza de sua despedida.

Mestre Biloco e a Saboeira / Foto: Arquivo
Por Hevelyne Figueirêdo
A cultura de um povo nunca se sustentou por prédios, editais ou repartições públicas. Ela vive, sobretudo, nas mãos, na sensibilidade e na coragem de pessoas que escolhem dedicar a própria existência à arte. Na cidade de Goiana, poucos nomes representam isso de forma tão grandiosa quanto Severino Feliciano da Silva, o Mestre Biloco, que nos deixou neste dia 11 de abril de 2026, aos 82 anos.
Sua partida abre uma ausência impossível de medir. Não se despede apenas de um mestre da música ou um incentivador das tradições populares. Despede-se de uma verdadeira instituição viva da cultura local, dessas raras personalidades que, sozinhas, conseguem mover gerações, preservar memórias e manter acesa a chama da identidade de um povo.
Biloco foi, em si, um território inteiro de manifestações culturais. Em sua trajetória cabiam a banda filarmônica, a aruenda, a ciranda, além de sua condição de pioneiro e mestre maior das bandas marciais de nossa cidade. Músico nato, viveu a arte como extensão do próprio corpo e do próprio espírito. Mesmo nos últimos dias, seguia criando, como se a arte lhe acompanhasse até o último gesto.
O seu legado ultrapassa a dimensão artística. Biloco fomentou a produção cultural, formou gerações de músicos, guardou histórias, transmitiu saberes e produziu um impacto social profundo, sobretudo nas comunidades onde a arte sempre foi resistência e pertencimento. Durante décadas, realizou pela cultura do município muito mais do que muitos órgãos oficiais conseguiram realizar. Sua obra sempre foi impactante porque nasceu do compromisso genuíno da paixão pelo que fazia.
Quem teve o privilégio de conhecê-lo recorda a leveza que carregava no olhar. Os mais próximos costumavam dizer que era uma criança no corpo de um homem adulto, não por ingenuidade, mas pela capacidade rara de conservar o encantamento diante da vida. Sua genialidade criativa vinha justamente dessa recusa em endurecer. Biloco nunca perdeu a beleza de inventar e acreditar.
Foi uma vida inteira dedicada à cultura popular e a arte musical. E mais do que isso: uma vida inteira sobrevivendo dela e permitindo que outros também encontrassem, na cultura, um caminho de existência.
Eu, conheço o mestre desde a infância, seu filho foi meu professor de música. Em 2016, durante a produção de um curta-metragem sobre a Banda Saboeira, tive a honra de entrevistá-lo. Biloco era um dos maiores detentores da memória dessa instituição, testemunha de uma história que vivenciou. Falou sobre a origem do nome, relembrou mestres, associados e formas de gestão de outros tempos. Ao final, resumiu em uma frase o tamanho de seu pertencimento: “nasci Saboeira e vou morrer Saboeira.”
E assim foi. O velório aconteceu no salão do clube de sua amada banda, que se fez presente no fim, guardando o mestre em sua derradeira despedida.
Ao som da cadência de seus dobrados prediletos, sob a sombra bonita e frondosa de uma castanhola, repousou. Mais do que um velório, foi um ritual de pertencimento coletivo, em que música, memória e afeto se entrelaçaram.
No último cortejo, ao som do Dobrado 220, parentes, amigos e alunos marcharam juntos em sua despedida. Houve a corneta amiga, o trombone de Eliel, o verso do poeta Tárcio Ogan através de uma última ciranda que transformou luto em reverência.
Em um tempo em que a memória do povo tantas vezes encontra silêncios institucionais, a despedida de Biloco nos lembra o essencial: a grandeza de uma vida não repousa apenas no reconhecimento oficial, mas na permanência do legado que deixa na história coletiva.
Biloco deixa mais do que saudade. Deixa escola, deixa personalidade, deixa identidade, deixa memória.
Há homens que passam pela vida. Outros se tornam permanência.
Biloco agora pertence ao tempo das eternidades, onde vivem os mestres que jamais deixam de ensinar.
À Ceça, Nininho, Fátima e todos os familiares, deixo meus mais sinceros sentimentos e meu abraço afetuoso neste momento de dor.

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